segunda-feira, 4 de abril de 2011

Qual função tem/deve ter a escola?

TEXTO: As funções sociais da escola: da reprodução à reconstrução crítica do conhecimento e da experiência. J. Gimeno Sacristán e A. I. Pérez Gómez.


Resenha Crítica


A igualdade de oportunidades não é um objetivo ao alcance da escola. O desafio educativo da escola contemporânea é atenuar, em parte, os efeitos da desigualdade e preparar cada indivíduo para lutar e se defender, nas melhores condições possíveis, no cenário social.” (p. 24). Começo este texto que tem por objetivo apontar as ideias principais de Sacristán e Gimeno no capítulo 1 do livro “Compreender e transformar o ensino”, com uma citação dos mesmos para apontar neste mesmo instante em que sintetizo algumas passagens importantes do texto o que entendo por “função social da escola” e discorrer um pouco sobre qual o papel do professor de Sociologia na contemporaneidade.

O processo de socialização é fator essencial desde as sociedades ditas primitivas. Com a complexificação das estruturas sociais fez-se necessário um modelo de socialização secundária através das escolas de variadas tendências, desde a escola religiosa até a escola laica. Com a revolução industrial e o ascenso da sociedade capitalista era preciso educar para o trabalho e para a sociedade. A preparação para o mundo do trabalho é aspecto fundamental e epistêmico no surgimento da escola concomitante ao capitalismo, porém existem inúmeras divergências teóricas com relação ao “que é educar para o trabalho”. Outro objetivo da escola é a preparação do indivíduo para viver como cidadão, segundo os autores a sociedade é mais ampla que o Estado, portanto a escola defronta-se com problemas de ordem econômica e social, já que o controle da propriedade privada é privilégio de alguns poucos em detrimento de uma enormidade de pessoas.

A escola como coerção, já diria Durkheim, e como uma aparelho ideológico de Estado, alertava Althusser, está extremamente ligada a um processo de inculcamento do que um processo de emancipação.

Os mecanismos da socialização na escola se encontram no tipo de estrutura de tarefas acadêmicas que se trabalhe na aula e na forma que adquire a estrutura de relações sociais da escola e da aula – esses componentes encontram-se mutuamente inter-relacionados, de modo que uma forma de conceber a atividade escolar requer uma estrutura de relações sociais compatíveis e convergentes. Nesse sentido são importantes os seguintes aspectos do desenvolvimento do currículo :

1. A seleção e a organização dos conteúdos do currículo. Concretamente, o que se escolhe e o que se omite da cultura pública da comunidade e quem tem o poder de selecionar ou intervir em sua modificação.

2. O modo e o sentido da organização das tarefas acadêmicas, bem como o grau de participação dos alunos na configuração das formas de trabalho.

3. A ordenação do espaço e do tempo na aula e na escola. A flexibilidade ou rigidez do cenário, do programa e da sequência de atividades.

4. As formas e estratégias de valorização da atividade dos alunos. Os critérios de valorização, assim como a utilização diagnóstica ou classificatória dos resultados e a própria participação dos interessados no processo de avaliação.

5. Os mecanismos de distribuição de recompensas como recursos de motivação extrínseca e a forma e grau de provocar a competitividade ou a colaboração.

6. Os modos de organizar a participação dos alunos na formulação, no estabelecimento e no controle das formas e normas de convivência e interação.

7. O clima de relações sociais presidido pela ideologia do individualismo e da competitividade ou da colaboração e solidariedade.

Enfim, a análise deve abarcar os fatores que determinam o grau de participação e domínio dos próprios alunos sobre o processo de trabalho e os modos de convivência, de maneira que se possa chegar a compreender o grau de alienação ou autonomia dos estudantes quanto a seus próprios processos de produção e intercâmbio no âmbito escolar.

A escola é um cenário permanente de conflitos (...). O que acontece na aula é o resultado de um processo de negociação informal (...) entre o que o professor/a ou a instituição escolar querem que os alunos/as façam e o que estes estão dispostos a fazer”. (Fernández Enguita, 1990). A escola funciona como uma pequena sociedade dentro de uma outra sociedade mais ampla e contraditória. Acontece que o espaço escolar torna-se a válvula de escape onde todos os males sociais se refletirão. No meio de uma tensão permanente entre as diferenciações sociais, o professor exerce então o papel de mediador destes conflitos.

Os dois autores partilham da ideia de que os desafios da educação nas sociedades pós-industriais, eu diria no pós-capitalismo, são os de desenvolver radicalmente a função compensatória da escola e reconstruir o conhecimento e a experiência. O desenvolvimento radical da função compensatória significa tratar os desiguais de maneiras desiguais como diria Rui Barbosa, no Brasil existe inclusive o Ministério de desenvolvimento social que financia essas políticas públicas de função compensatória, tais como as ações afirmativas para negros, indígenas e oriundos de escolas públicas e o seu cabedal político, o programa de assistência social Bolsa Família que atende mais de 12 milhões de famílias em todo o território nacional. São estes dois exemplos de radicalização compensatória, lembrando que os autores falam em uma época de ascenso neoliberal na América Latina e certa abertura democrática em alguns dos nossos países. Portanto é função da escola preparar não somente para o mundo do trabalho, mas para a vida na pólis e que dessa maneira o educando possa intervir “racionalmente” no cotidiano social.

A reconstrução do conhecimento e da experiência passa para Gimeno e Sacristán por uma lógica diversa da que acontece até o período em que escreveram, a educação deve ser integradora culturalmente e acima de tudo livre de pressupostos ideológicos. Como afirma Bernstein (1987): “A escola deve transformar-se numa comunidade de vida e, a educação deve ser concebida como uma contínua reconstrução da experiência. A escola, ao provocar a reconstrução das preocupações simples, facilita o processo de aprendizagem permanente, ajuda o indivíduo a compreender que todo conhecimento ou conduta encontram-se condicionados pelo contexto e, portanto, precisam ser comparados com outras representações, assim como com a evolução de si mesmo e do próprio contexto. A função crítica da escola, em sua vertente compensatória e em sua exigência de provocar a reconstrução crítica do pensamento e da ação, requer a transformação radical de suas práticas pedagógicas e sociais e das funções e atribuições do professor. O princípio básico que norteia a escola nesses objetivos e funções é facilitar e estimular a participação ativa e crítica dos alunos nas diferentes tarefas que se desenvolvem na aula e que constituem o modo de viver da comunidade democrática de aprendizagem.

Discorrerei agora sobre a citação que fiz no inicio deste pequeno ensaio. Em primeiro lugar se logramos educar para a democracia, é tarefa urgente do professor reconhecer as vantagens e debilidades da mesma. Só existirá um cidadão pleno de seus direitos se este souber que a democracia em que vive é contraditória e em si mesma é um termo em disputa. Toda ciência crítica deseja ser/tornar-se senso comum, para isso somente uma educação com a valorização do que constituiu a subjetividade do sujeito (educando) é que este se refletirá em um outro ator social mais consciente de si. O papel do professor de sociologia, hoje atuante no ensino médio, é em primeira mão fazer com que o aluno tenha uma visão sociológica da sociedade e ademais uma perspectiva crítica. Sem isto não haverá democracia, pois a representação parlamentar e política é somente uma das expressões de ação social no seu largo sentido. Educar para votar ou compensar para educar, é a dessubjetivação do processo de vida social, assim como a alienação no processo de trabalho transforma o homem em coisa (objeto), a educação para a “defesa e condição possível” modifica o ser social em ser solitário, mais um concorrente no mundo do trabalho. Não proponho um coletivismo totalitário nem uma ideologia pseudoindependente. Acredito que só a pessoa conhecendo os diversos aspectos da complexidade do mundo pós-capitalista ou do capitalismo tardio é que em se defrontando com estes obstáculos poderá escovar sua história à contra-pêlo como diria Benjamim. Portanto para fazer um cotejamento com a importância da mídia na aprendizagem, o direcionamento ideológico hegemônico só se dá se na escola o professor também está disposto a ser mero participante. Todo o espectador deve transformar-se em ator social, partir dessa premissa é fundamental para uma pedagogia de transformação ou simplesmente de adaptação social a diversidade. A experiência do não-eu no outro é fundamental para a originalidade na subjetivação dos sujeitos de agencia própria.

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